Copo de 3

31 março 2015

Gonzalez Byass Pedro Ximénez Muy Viejo

A Gonzales Byass foi fundada em Jerez no ano de 1835 por Manuel Maria Gonzalez quando tinha apenas 23 anos de idade. Uns anos depois entra na empresa um novo sócio então distribuidor no Reino Unido de seu nome Robert Blake Byass. O tempo passou e hoje a Gonzales Byass é apenas comandada pela quinta geração da família Gonzalez cujo grande legado dos seus antepassados resulta numa enorme quantidade de vinhos velhos de enorme qualidade. A empresa detém cerca de 800 ha de vinhedo com 95% Palomino e 5% de Pedro Ximenez, sendo este o único produtor de Jerez a produzir esta variedade. O processo de elaboração começa numa vindima tardia das uvas Pedro Ximenez que são submetidas ao processo do "soleo" onde se deixam as uvas sobre esteiras ao sol, neste caso foram 20 dias. O resultado final é um vinho extraordinariamente denso que irá passar mais de 30 anos na centenária Solera de Noé. Por ano apenas 2000 garrafas vêm a luz do dia, com preço de 55€ na loja do produtor. 

A pergunta inicial é quase sempre a mesma, o que esperar de um vinho com mais de 400 g de açúcar por litro? O melhor é apertar o cinto pois a experiência é sempre intensa, num vinho que se entranha e conquista de forma arrebatadora a nossa boca, todo o palato fica imediatamente refém. A complexidade aumenta conforme a qualidade e idade do vinho em questão, neste caso é um vinho com grande definição de aromas e sabores, com um balanço extraordinário de todas as componentes. Os aromas surgem por camadas com muito Bolo Inglês, as mais variadas frutas passificadas, caramelo líquido, café, caixa de charutos, muitas especiarias, muita frescura que aguenta todo o peso de forma brilhante. Boca poderosa, concentrado, muito saboroso, forra o palato, algum caril, toque do nougat, nozes, a doçura bem acompanhada por uma muito boa acidez, suave toque de nozes no fundo, longo e interminável final. Para acompanhar nada melhor que um fondant de chocolate ou uma bola de gelado de baunilha. Arrebatador. 95 pts

27 março 2015

Ramos Pinto 20 Anos

A casa Ramos Pinto foi fundada em 1880 por Adriano Ramos Pinto quando este tinha 21 anos de idade, cedo expandiu o seu negócio e um pouco depois entrou para a sociedade o seu irmão. O pioneirismo sempre se destacou na Ramos Pinto que sedo ficou conhecida pela qualidade dos seus vinhos, dos quais agora destaco este fantástico Tawny 20 Anos. A Ramos Pinto não comercializa Colheitas, deixando os seus Tawny envelhecer ao sabor do tempo para que com a mestria do lote se atinja a plenitude no blend final, que resulta na expressão máxima do que é a alma do Vinho do Porto. Neste caso é um lote cuja média de idades ronda os 20 anos, proveniente dos vinhos de uma das mais antigas quintas do Douro, a Quinta do Bom Retiro. Com preço a rondar os 50€ estamos perante um Tawny clássico, cheio de elegância, onde a frescura dos anos mais novos se mistura com a complexidade e magnitude dos vinhos mais velhos, alguns com mais de 100 anos. É um vinho de puro prazer, companheiro de escepção para o final da refeição ou por si só para beber e meditar. Mostra uma enorme complexidade de aromas, casco velho de Porto com fruta a fazer lembrar damasco e fruto seco, casca de laranja, caramelo, iodo, tudo de forma muito elegante e profundo. Na boca é fino e elegante, untuosidade com uma boa ponta de equilibrio entre componentes, sabores a ir ao encontro do já enunciado, num final longo e muito persistente. 95 pts

26 março 2015

Grande Rocim Reserva 2011

É o topo de gama da Herdade do Rocim, dá pelo nome de Grande Rocim Reserva e tem na alma a essência da casta Alicante Bouschet. Durante um ano e meio serenou em barrica com direito ainda a mais um ano de garrafa até ser colocado à disposição dos consumidores. Todo o tempo extra que continuar em garrafa só lhe fará bem, de momento está ainda muito novo, embora com grande frescura de nariz, início com fruta vermelha (bagas, amoras) muito sumarenta, toque herbáceo, cacau, conjunto coeso e profundo, lá no fundo uma ligeira nota de licor. Boca de grande impacto com enorme presença a mostrar um vinho poderoso, amplo, fresco, muito boa estrutura com fruta vermelha a explodir de sabor ao lado de algum bálsamo, quase que se mastiga, terminando longo com travo de especiaria. Tudo com grande detalhe, enorme estrutura num conjunto coeso, limpo e fresco com uma enorme vida pela frente, paga-se por tudo isto coisa de 50€ com a garantia que se leva para casa um dos melhores vinhos de Portugal. 95 pts

25 março 2015

Giroflé Alvarinho 2013

A aposta no consumidor mais jovem e irreverente, com vinhos onde acima de tudo o prazer está garantido à mesa e onde se destacam rótulos apelativos e até atrevidos, tem sido colocada em prática muito timidamente por parte dos produtores nacionais. É esse o caso do projecto Giroflé (FAP Wines) onde o enólogo João Matos, após a experiência acumulada em empresas como a VDS ou a Beyra Vinhos de Altitude, sem adega própria decidiu estabelecer parceria com produtores onde produz e engarrafa os seus Giroflé. João Matos posta claramente numa linha de vinhos que se enquadra em tudo o que já aqui foi dito, aliando um forte pendor gastronómico, neste caso o rótulo do Alvarinho é da autoria de António Queirós Design.

Um Alvarinho de 2013 cujo preço ronda os 10€, a mostrar-se algo tenso de início, precisando de algum tempo no copo. Desdobra-se em toques de fruta madura, citrinos com ligeiro apontamento tropical, alguma geleia, muita frescura num vinho jovial com rasgo fumado em fundo. Na boca alguma austeridade a marcar o início de prova, abertura para ponto de mel com toda a frescura da fruta, saboroso e com boa persistência final. Grande companhia de umas gambas al ajillo. 90 pts

24 março 2015

My Portugal: Recipes and Stories by George Mendes

My Portugal: Recipes and Stories by George Mendes 
(Stewart, Tabori & Chang Inc, 2004, 25,03€)

George Mendes é luso-descendente, a sua família foi para os Estados Unidos da América à procura do sonho americano corria o ano de 1969. Nasceu no Connecticut e aos 17 anos entrou para a Culinary Institute of America onde se formou. Passou quase vinte anos a aprender com alguns dos melhores chefs do mundo sendo hoje em dia dono do Restaurante Aldea (1 estrela Michelin) em New York. A sua paixão pela cozinha Portuguesa vem de longe, afinal o sangue de Portugal corre-lhe nas veias, sendo no seu restaurante onde dá a conhecer ao mundo um pouco dessa sua paixão. 

O livro My Portugal: Recipes and Stories demorou dois anos a ser criado, durante esse tempo George Mendes percorreu Portugal numa viagem gastronómica desde a terra dos seus pais, em Ferreirós do Dão, para descobrir as suas raízes. Como diz o título, é uma junção de receitas com muitas histórias e apontamentos de locais e visitas ou conselhos sobre este ou aquele ingrediente, tudo numa viagem muito bem documentada e ilustrada. Num objectivo claro de dar a conhecer ao mundo a Cozinha de Portugal, o livro mostra desde os pratos mais sofisticados do Aldea aos pratos mais clássicos que facilmente podemos recriar em casa,  mas sempre com o toque pessoal e criativo de George Mendes. Tudo isto num total de 125 receitas sempre bem acompanhadas por excelentes fotografias. Um livro cheio de alma, onde a vontade de mostrar o produto da terra fala mais alto, sem perder pelo meio uns ligeiros apontamentos sobre os vinhos de Portugal. 

18 março 2015

Duorum 2012


Em 2007 nasce o projecto Duorum, das mãos de dois enólogos que marcam a história do vinho em Portugal nas últimas décadas – João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco. Este Duorum é desde que se estreou no mercado um dos vinhos que faço questão de ter por casa, a razão principal é a fantástica relação preço/satisfação que apresenta colheita após colheita. Digo isto porque para um vinho que se situa no patamar dos 9€ é daqueles que não engana, tanto pela qualidade ou mesmo pela maneira como mostra um Douro cheio de vida, com muita fruta carnuda e bem fresca, tudo muito bem delineado e envolvente. A juntar a tudo isto de realçar a facilidade de conseguir encontrar nas prateleiras de um supermercado quase sempre ao lado do seu irmão mais novo, o Tons de Duorum que também mostra ser uma escolha acertada embora situando-se num patamar qualitativo abaixo do Duorum.

Mas centrando a nossa atenção apenas no Duorum 2012, as castas que dele fazem parte são, Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz. Apresenta-se marcado pela fruta madura e musculada (groselha, amora, framboesa), bonitos os aromas florais a lembrar violetas que vão surgindo tal como a barrica bem integrada no conjunto. Todo ele elegante e cheio de vida, com o vigor normal da juventude, bom volume de boca, passagem com muito sabor a fruta, mostrando ainda ligeira secura na parte final, com tempo de vida pela frente. A beber agora em novo com pratos mais temperados, uma perna de cabrito no forno por exemplo, ou podendo ser bebido durante os próximos anos. 91 pts

17 março 2015

Perlarena rosado 2013


Conheci este vinho pela primeira vez na adega do Dominio del Bendito (Toro) com o vigneron Anthony Terryn, em 2009. O rosado que naquela altura ainda descansava na garrafa, mal tinha tido tempo para ser rotulado, um rosado que na passada do tempo e das colheitas tem vindo a refinar e a redefinir o seu percurso e perfil. Agora podemos afirmar que está melhor que nunca, para mim um dos melhores, cabe sem grande necessidade de questionar, nos três mais tendo em conta muito do que se tem bebido dentro e fora de portas. Custa coisa de 8€ e pode ser encomendado na loja online do produtor.

Na alma corre a Tinta de Toro (80%), Syrah (10%) e Verdejo (10%) proveniente dos solos arenosos de La Jara, o vinho fermentou em barricas, mostra-se com enorme frescura e elegância, cativa e conquista de imediato, a secura em boca catapulta o vinho para a mesa de forma categórica. Como se informa no contra rótulo, bebe-se como água bendita mas não o é, na verdade o vinho bebe-se com gosto e quando damos por ele acabou. Cheio de delicadeza e com fruta a mostrar muita framboesa, flores, ligeiro vegetal fresco e toque de anis estrelado, num conjunto que tanto se bebe fresco como a temperaturas de tinto, onde se transforma e mostra a garra da região. Pede saladas com marisco, peixe grelhado, carnes brancas, entradas das mais variadas, canapés, comida de forte tempero pois a acidez revigora o palato. Um grande rosado com a onde a capacidade de envelhecimento é natural. 93 pts

Adega de Pegões Colheita Selecionada branco 2013


Por vezes com a vontade de escrever sobre as novidades que entram no mercado ou sobre os inúmeros vinhos que fazem as nossas delícias, acabamos por esquecer e deixar de lado aqueles que no dia-a-dia nos fazem companhia à refeição. São os vinhos que bebemos em casa de forma completamente descomprometida, apenas porque nos apetece beber um simples copo à refeição, e que no caso dos brancos temos sempre uma garrafa pronta a abrir colocada no frio. São estes fiéis amigos que raramente têm um lugar de destaque perante tanta novidade e marca na ribalta. Um desses vinhos que me tem acompanhado ao longo da última década, ainda que com altos e baixos entre colheitas, tem sido o Adega de Pegões Colheita Selecionada branco.

Comprei este branco de 2013 no supermercado com um preço bem aliciante uma vez que não chega aos 3€, o lote teve ajustes e viu a certa altura a Pinot Blanc ser substituída pela Verdelho, de resto continua o blend de Arinto, Chardonnay e Antão Vaz, dos solos de areia da região de Pegões onde a respectiva Adega Cooperativa está localizada. Fermenta em barrica de carvalho francês onde estagia durante quatro meses com direito a batonage. A relação entre aquilo que custa e a satisfação que proporciona é elevada, ficando por vezes a pensar quantos vinhos de custo muito superior me deixaram renitente ou até defraudado com o tanto que custaram e o tão pouco que mostraram.

Um branco que acompanha bem pratos de carnes brancas ou peixe, mostra notas de fruta bem fresca por entre o tropical e frutos de pomar, ligeiro vegetal também fresco num conjunto a mostrar boa harmonia entre madeira e fruta, muito certinho com toque de ligeira baunilha que o envolve. Estrutura mediana com frescura, bem afinado, sente-se a fruta madura embalada por sensação de alguma cremosidade a meio do palato, final médio. 89 pts

12 março 2015

The Moro Cookbook by Sam and Sam Clark

The Moro Cookbook by Sam and Sam Clark
(Ebury, 2003, 20,74€)


Um bom livro de cozinha é aquele em que as receitas que nos fornece funcionam, ou seja, tudo aquilo que lemos é de forma simples capaz de ser replicado em casa sem grandes problemas. Acontece que muitos livros apenas funcionam para encher o ego do chef que assim pode dizer que tem um ou dois livros lançados no mercado, quando na prática as receitas que ali colocou nunca funcionam numa cozinha dita normal. 

Este The Moro Cookbook é um dos meus livros favoritos, é daqueles em que tudo o que lá vem dentro funciona e onde nos apetece experimentar/fazer tudo o que lá aparece e por vezes damos conta que aquela ou a outra receita são repetidas vezes sem conta, como a deliciosa sopa de beterraba e cominhos, um verdadeiro sucesso aqui em casa. 

Os autores Samuel e Samantha Clark são um casal apaixonado pela gastronomia de Espanha, Norte de África e Mediterrâneo Oriental. Após alguns sucessos de restaurantes em Inglaterra decidiram abrir em Londres o Moro, que literalmente significa Mouro, canalizando naquele espaço toda a sua paixão pelos diversos tipos de influências que foram recolhendo nas suas viagens. Em 2001 lançaram o seu primeiro livro, este Moro The Cookbook, que simplesmente é um recompilatório de quase 300 páginas das mais famosas receitas do restaurante. Um livro impregnado de sabores e aromas intensos, receitas fieis às origens onde apresenta alguns pratos de muito condimento e paixão, cheio de detalhes fantásticos com boas fotografias onde se explicam detalhadamente os mais variados ingredientes. As receitas funcionam muito bem e algo muito importante é a facilidade de encontrar os ingredientes necessários, o resultado é o prazer garantido à mesa. O livro é vasto e vem separado em várias secções, desde ensinar as mais variadas receitas de pão, ao fantástico Labneh um queijo  feito a partir de iogurte natural, à deliciosa sopa de beterraba e cominhos ou a Raia com vinagre de Jerez, entre muitas outras... 
Obrigatório para quem gosta de cozinhar.
 
Powered By Blogger Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.