Copo de 3: Ponte das Canas 2005

20 Maio 2009

Ponte das Canas 2005

No início do século XIX, Thomas Reynolds migrou ao Alentejo, tendo como objectivo o negócio da cortiça. Três gerações passadas, o seu neto John Reynolds adquiriu uma propriedade de 900 hectares, denominada Herdade do Mouchão. Aqui, à actividade corticeira a família acabou por adicionar a produção de vinhos. Plantaram-se várias vinhas e em 1901 construiu-se uma adega tradicional, de grossas e brancas paredes de adobe e um elevado pé direito, tudo encimado por um magnífico telhado de telha vã portuguesa. Pensa-se que foi também por iniciativa de John que as primeiras plantas da casta Alicante Bouschet foram trazidas de França.
Durante a década de cinquenta, do século XX, a actividade vitivinícola sofreu uma singular expansão que se traduziu por um aumento das áreas de vinha, pelo aperfeiçoamento das tecnologias de vinificação e pelo início da venda de vinhos engarrafados, em detrimento da velha tradição de venda de vinho a granel, com um cunho muito regional.
Os 38 hectares de vinha são constituídos por diversas parcelas, colocadas em diferentes pontos da propriedade, as mais antigas situam-se em solos de aluvião, numa zona única e irreproduzível, perto da adega, e estão particularmente vocacionadas para a produção de uvas de Alicante Bouschet de elevada qualidade.
Esta casta encontrou na Herdade do Mouchão um “terroir” de eleição. Desde a sua chegada, há mais de cem anos, que as plantas de Alicante Bouschet mostram uma excelente adaptação aos solos argilosos de aluvião, (a 200 metros de altitude), desfrutando de uma insolação intensa, temperaturas elevadas ao longo da maturação, chuvas esporádicas e alguma geada.
Nas outras vinhas situadas em zonas mais elevadas, em solos de boa drenagem, castas tintas autóctones tradicionais como a trincadeira, o Aragonez ou o Castelão, partilham os encepamentos com algumas castas brancas como o Antão Vaz, Arinto e Fernão Pires.
Um século após a sua fundação, e depois de ter recuperado das expropriações agrícolas que ocorreram após a revolução de 1974, a Herdade do Mouchão continua na posse da família Reynolds, mantendo uma tradição ancestral passada de pais para filhos.
Todo o processo de vinificação se mantém praticamente intocável, preservando a tradicional vindima e a fermentação das uvas em lagares de pedra com pisa a pé.
E quando menos se esperava, eis que a surpresa acontece, com o lançamento de um novo vinho , o Ponte das Canas, guiado por linhas modernas mas com um pé no passado, um vinho que une tradição com inovação, moderno com clássico, uma combinação que aqui provamos na sua primeira colheita (2005), lembrando que no mercado já se encontra a de 2006.

Ponte das Canas 2005
Castas: Touriga Nacional; Touriga Franca e Alicante Bouschet - Estágio:
barricas novas de carvalho francês durante 24 meses, com estágio em garrafa de mais 12 meses. - 14,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/alta.

Nariz de bela intensidade aromática, inunda o copo com notas de eucalipto, chocolate preto e fruta muito madura, na onda das bagas silvestres, amora e cereja. Liberta-se e perde vergonhas, despertando para aromas florais ainda que algo subtis, e ligeiro vegetal seco (chá preto) num bouquet coeso sentindo-se ainda algumas pontas de ligeira austeridade (o tempo em garrafa tratará delas), onde o torrado da madeira parece ser o pano de fundo mas sem em momento algum, marcar em demasia a prova.

Boca a mostrar um conjunto coeso e bem estruturado, com alguma pujança na forma como conquista a boca, mas consegue ao mesmo tempo ser equilibrado e delicado, saboroso e bastante consistente na prova que dá. Toque mentolado novamente presente, com conjunto de notas de tosta, chocolate preto e fruta muito madura com alguma compota da mesma. Mostra frescura durante toda a passagem de boca , com acidez bem colocada, em fundo de persistência média/alta onde o toque after-eight parece perdurar.

Pode-se dizer que foi mais uma entrada com o pé direito da Herdade do Mouchão, relembra o caso de sucesso que foi o Tonel 3/4 da colheita de 1996. Um vinho que não perde a identidade da casa mãe, mas com um perfil mais virado para as novas tendências, mais moderno e um pouco ''facilitador'' na maneira como se mostra durante a prova. Beber agora é um prazer, que se pode aumentar com mais uns bons anos de guarda... porque afinal, a tradição e o saber estão bem presentes, num preço que ronda os 15€.
16,5

5 comentários:

LMR disse...

Afinal o vinho até é razoável... houve quem mandasse umas bocas quando ele foi anunciado... ah e tal modernices

Pedro Rafael Barata (Blog Os Vinhos) disse...

Eu também gostei muito deste vinho e estou curioso em provar a nova colheita.

Copo de 3 disse...

O vinho é bem mais do que o razoável acima mencionado, e não convém esquecer que para todos os efeitos o Ponte das Canas é uma "modernice" da Herdade do Mouchão, goste-se mais ou menos do perfil por ele apresentado.

Raul e Joel Carvalho disse...

Sabem de alguma garrafeira ou algum site da net que venda este vinho?

É que já agora também queria provar... E por este preço (15 euros) vale apena...

Abraços dos manos Carvalho

Copo de 3 disse...

Sei que na Garrafeira Nacional vendem o dito a belíssimo preço.

 
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