Copo de 3: Maio 2009

28 maio 2009

Alvear Pedro Ximenez de Anada 2004

É na província de Córdoba que se situa uma das primeiras áreas vinícolas da Andaluzia, remonta ao séc VIII A.C., a D.O. Montilla-Moriles, que foi criada em 1932.
Apesar de os seus vinhos se confundirem com os de Jerez, as diferenças entre ambos são bastante claras: enquanto o de Jerez é um vinho de aroma a lembrar azeitona, por vezes salino e seco, o de Montilla-Moriles desenvolve outros aromas como tomilho, rosmaninho... No paladar são vinhos que recordam a avelã, enquanto os de Jerez tem um gosto mais amendoado, com os finos de Montilla a apresentarem mais corpo e mais oleosidade, menos secos, com uma baixa acidez e um final típico amargo e algo rústico.

Os vinhos da D.O. Montilla-Moriles enquadram actualmente desde os estilos mais tradicionais aos mais modernos (caso do exemplar aqui em prova), produzindo 3 tipos de vinho: jóvenes afrutados, crianza (procedentes de uma combinação de lotes): secos, semi secos e doces , generosos (através do sistema de solera): frescos secos, finos, amontillados (inventado aqui no Séc. XVIII), palo-cortado e olorosos amontillados.
A estes 3 tipos, juntam-se os Pedro Ximénez, e também o Brandy de Montilla.
Em baixo coloco um vídeo que de certa forma ajudará a compreender um pouco melhor esta D.O. e os seus vinhos, está em Espanhol.



Um factor a ter em conta, pela importância que tem na base de um vinho, é e sempre será, o solo onde as vinhas estão colocadas, neste caso são as famosas Albarizas, solos ricos em carbonato de cálcio, pobres em matéria orgânica natural, pouco férteis, composição mineralógica simples (calcário e sílica) e com alta capacidade de reter a humidade (30%).
Durante a vindima realizada em finais de Agosto (uma das primeiras em Espanha e provavelmente de toda a Europa, por questões de clima), os cachos são estendidos num tapete onde as uvas passificam por acção do sol, adquirindo uma tonalidade cinza-pardo. Uma vez prensadas, obtém-se gota a gota um mosto denso, a superar largamente 250 gramas de açúcar por litro. Ora se por cada 17 gr de açúcar do mosto se transformarem num grau de álcool, consequentemente a percentagem média de etanol no vinho resultante da fermentação seria de 14,7%. É neste ponto que entram em funcionamento as leveduras próprias desta região, e graças a uma alta capacidade de transformação, obtêm de um mosto com 250gr um vinho com mais de 15% álcool. Desta maneira, o vinho passa sem mais adições, directamente para estágio em barrica.

Já passaram quase 3 séculos, desde que o primeiro Alvear, Juan, originário do município navarro de Nájera, fosse morar para a cidade de Córdoba para desempenhar funções a nível de economia local. Mas seria o seu filho, Diego de Alvear y Escalera que em 1729 se muda para Montilla onde nasce a sua paixão pela vinha e pelo vinho, onde iria fundar a Bodega Alvear (a mais antiga da Andaluzia).
Diego iria buscar à Argentina o seu capataz de confiança de nome Carlos Billanueva, que marcava com as suas iniciais (C.B.) os melhores vinhos provenientes da serra. Foi desta forma que se foi criando o "estilo" Alvear, pleno de moderação e homogeneidade nos seus traços, todavia presentes no Fino C.B. a marca centenária e mais conhecida deste prestigiado produtor.

A originalidade dos Alvear Pedro Ximénez de añada/ano de colheita, que é o referido no rótulo, é que se elaboram exclusivamente a partir de uvas Pedro Ximénez de uma só colheita, com um estágio estático (sem direito a Solera ou Criadera), com ou sem madeira a depender do tipo de vinho em questão.
Alvear Pedro Ximénez de Añada 2004
Castas: Pedro Ximénez (100%) - Estágio: 6 meses em madeira - 17% Vol.

Tonalidade ouro velho com toques de âmbar, apresentando uma elevada viscosidade.

Nariz de aroma potente e conquistador, é difícil não se ficar entretido com o refinado bouquet que este vinho emana no copo. Num todo harmonioso apesar da qualidade e complexidade de aromas que despoleta, variando desde fruta em passa (ameixa, figo), mel, tâmara, rosmaninho, laranja amarga e marmelada.
Ganha com algum tempo de copo, e mesmo com a subida de temperatura, a panóplia de aromas vai rodopiando, sem que em algum momento mostre sinais de quebra ou cansaço.

Boca doce é bom é bom é, lá dizia o anúncio do pudim. É assim que se apresenta este vinho, com uma enorme untuosidade que parece que o melaço, perdão... o vinho, se cola às paredes da boca, tecto incluído. É denso e coeso, mas ao mesmo tempo mostra-se harmonioso e cativante. A fruta está presente em modo de passa de ameixa e figo, alguma tâmara, avelã, licor de laranja e uma acidez bem integrada em todo o conjunto que lhe dá aquela frescura que não é derivada das horas que passou no congelador, terminando num longo e persistente final.

É um vinho arrebatador na boca, de impacto elevado para quem não está minimamente à espera... e não são poucos aqueles a quem já tive oportunidade de dar a provar e que ficaram rendidos aos encantos deste Pedro Ximénez.
Deve ser consumido a uma temperatura de 6º - 8ºC. , e como uma vez me disse um amigo, até se pode deixar esquecido no congelador. Acompanha muito bem variadas sobremesas, frutos secos e queijo azul, sendo que por cima de gelado de baunilha fará a delícia de muitos. O preço é qualquer coisa de espantoso, visto que se pode comprar na casa dos 6-7€.
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26 maio 2009

Manzanilla La Gitana

A família Hidalgo entrou no negócio do vinho em 1792, quando José Pantaleón Hidalgo comprou uma pequena adega ao seu sogro D. Roque Verjano.
Desde essa altura que a empresa passa de pai para filho, sendo hoje a única empresa vinhateira de toda a região, totalmente independente e controlada a 100% pela família, sendo dirigida pela 5ª geração em linha directa do fundador.
O estandarte das Bodegas Hidalgo, é a mundialmente conhecida e reconhecida Manzanilla La Gitana, cujo rótulo foi pintado por Joaquin Turina.

A Denominação de Origem "Jerez-Xérès-Sherry" foi a primeira a ser criada em Espanha, no ano de 1933.

Falar de Manzanilla é falar de um dos aperitivos mais populares do mundo, é falar de Xerez, é falar acima de tudo de Sanlúcar de Barrameda, a cidade costeira situada na foz do rio Guadalquivir, constituindo um dos vértices dos vinhos de Jerez, e que dá nome à própria D.O. "Manzanilla - Sanlúcar de Barrameda", encontrando-se inserida esta mesma na D.O. "Jerez-Xérès-Sherry".

A culpa de tudo isto, é de três agentes tão importantes e de alguma forma exclusivos, na maneira única como se combinam, que são a proximidade do mar, o rio Guadalquivir e a marisma, que criam um microclima único em Sanlúcar de Barrameda.

Não será de estranhar que as temperaturas mais suaves e uma humidade relativa mais alta, transportada pela brisa marítima, façam com que se reúnam certas condicionantes muito importantes na altura da elaboração dos vinhos nesta cidade, e que influenciam em muito na formação de uma capa de leveduras típica, conhecida como Velo de For, que em Sanlúcar se apresenta mais espessa e com maior variedade de leveduras presentes, o que por si só torna estes vinhos únicos e merecedores de uma D.O. exclusiva.

Mas partindo do principio, referindo ao processo de elaboração, a uva que está por detrás deste vinho é a variedade Palomino Fino, que depois de vindimada é pisada/prensada suavemente, com os mostos resultantes (limpos, ligeiros e pálidos) a realizarem a fermentação alcoólica (depósito de inox) por completo, com a finalidade de obter o que irá servir de base para todos os vinhos de Jerez "Generosos" e de Manzanilla, onde a quantidade de açúcar residual é praticamente insignificante, equivalente a seco com 11 a 12,5 % Vol.

Os mostos completamente fermentados, são alvo de uma avaliação por parte do enólogo, onde os vinhos mais finos no nariz, pálidos e ligeiros são classificados como Finos (marcados com um palo /), e aqueles com maior estrutura em boca são denominados como Olorosos (marcados com um O).

Chega o momento do "encabezado" ou seja , adicionar álcool (fortificação), onde os Finos chegam até aos 15% e os Olorosos até aos 17%, e aqui se define o tipo de vinho que vamos querer ter no futuro.
A recordar que com os 15% o vinho mantém a flor realizando uma crianza biológica sem oxidação, e com 17% o vinho perde a flor e por isso realiza um estágio com oxidação.

Se até aqui tudo normal, a magia dos vinhos de Jerez (e o que os diferencia) começa no exacto momento em que é depositado em barrica/bota de 600 litros de carvalho americano, que no caso dos Finos nunca são completamente cheias, deixando o espaço de dois punhos, onde o tempo mínimo de estágio é de 3 anos.
É aqui que tudo começa, e o somatório de todas as condicionantes atrás referidas vai proporcionar a formação do famoso Velo de Flor.
A Crianza Biológica, resulta da acção das leveduras que ao se alimentarem de oxigénio, sobem à superfície do vinho, e formam a "flor", protegendo-o de qualquer oxidação, enquanto se vão alimentando de açúcar, álcool e glicerina e produzindo acetaldeído, dióxido de carbono... alterando com isto as características organolépticas do vinho.

Manzanilla La Gitana
Castas: 100% Palomino Fino - Estágio: 3 anos em barrica - 15% Vol.

Tonalidade amarelo palha muito pálido.

Nariz de aroma firme e vincado, mas ao mesmo tempo delicado e intrigante, de mediana profundidade ou complexidade. É um vinho que dada a sua especificidade pede algum tempo de roda dele, para que melhor se entenda a maneira como se manifesta. Destaque para flores brancas (camomila, malmequer) com ligeiro toque de infusão das mesmas, variando depois entre alguma maçã reineta no forno, frutos secos (amêndoas, avelã), fermento e no fundo um suave aroma iodado tantas vezes encontrado em algas ou nos passeios à beira mar, num conjunto que se sente fresco.

Boca a ir de encontro ao perfilado na prova de nariz, onde se destaca de imediato a secura que transmite, numa passagem com boa presença, aliada a um sabor ligeiramente "salgado", mineralidade, frutos secos, vegetal seco. Conjunto envolto numa acidez que lhe confere agradável frescura, com final de boca de persistência média.

Um vinho de aperitivo por excelência, que se deve beber bem fresco (7 - 8ºC), servido sempre em pouca quantidade e enquanto novo, muito novo mesmo, digamos que assim que sai para o mercado é quando a sua prova é mais expressiva. Na altura da compra deve-se verificar sempre a data de engarrafamento (vem no contra rótulo). O preço é mais um aliciante na altura da compra, anda na casa dos 5-8€, num vinho de elevada relação preço/qualidade (há outras e de superior qualidade), que acompanha bem entradas como queijo, presunto, marisco, fritadas de peixe ou saladas.
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25 maio 2009

Altas Quintas Crescendo branco 2008

Dando seguimento às provas dos vinhos do produtor Altas Quintas (Portalegre), surge no mercado a nova colheita do Crescendo branco.
Este colheita 2008 tem a peculiaridade de ter como ausente do lote, a casta Verdelho, que segundo informou o produtor, será reservada para o lançamento do primeiro Altas Quintas branco. O lote final fica por isso reduzido a duas castas, Arinto e Fernão Pires, conjugando a firme e alta acidez, e toques de mineralidade da primeira, com a complexidade aromática da Fernão Pires, resultante no conjunto que aqui se coloca em prova:

Altas Quintas Crescendo branco 2008
Castas: Arinto e Fernão Pires - Estágio: câmara frigorífica a temperatura controlada - 13% Vol.

Tonalidade amarelo citrino de concentração media/baixa.

Nariz que mostra um vinho de aromas vibrantes, com aroma de pétalas de rosas, erva príncipe, rama de tomate e fruta... muita fruta na onda dos citrinos com ataque limonado e de alguma tangerina, com ligeiros drops de rebuçado. Colmata-se no fundo com rasto mineral, qual bancada de pedra molhada.

Boca de enorme capacidade refrescante, a acidez conferida pela casta Arinto marca enorme presença em toda a prova. De estrutura mediana, confere nos toques de citrinos, tangerina e erva príncipe, reveza-se nos contornos de ligeiros pontos de algum rebuçado (daqueles pequenos em papel celofane), e uma boa persistência em final de boca com travo ligeiramente mineral.

É notório o bom entendimento entre as duas castas (Fernão Pires e Arinto), resultando num vinho que apetece beber seja em que altura for e sem querer desprestigiar o vinho em causa, que este é um autêntico "vinho de esplanada", perfeito para beber enquanto novo e no calor do Verão, a acompanhar desde uns choquinhos grelhados ou umas postas de salmão grelhado, regado com com um pouco de sumo de limão que irá certamente realçar o sabor do vinho.
O preço deverá rondar os 8€, num vinho bem feito, que se bebe de forma descontraida sem pensar muito no que se tem no copo, pronto para os dias quentes que se avizinham.
15,5

22 maio 2009

Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas 2006

Desta colheita foram engarrafas 77.420 garrafas, com um preço que ronda os 27€ na maioria das garrafeiras a nível nacional, relembro que há excepções onde o vinho se encontra a um preço bem inferior, digamos que ao mesmo nível do se consegue encontrar em Espanha, ficando na casa dos 18€, o que faz com a diferença de preço ande sensivelmente em menos 10€ por garrafa.
Isto faz-me perguntar, até que ponto alguns dos preços praticados em Portugal limitam a compra apenas para aquela suposta gama alta de consumidores ?
Andamos a pagar o real valor dos vinhos que compramos, ou por outro lado andamos a encher os bolsos a alguns "gulosos" ?
Este Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas ao preço que tenho como referência (18€), é sem dúvida alguma, das melhores relações preço/qualidade que temos em Portugal.

Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas 2006
Castas: Vinhas Velhas com mais de 70 anos - Estágio: 18 meses em barricas de carvalho francês (85%) e carvalho americano (15%) - 14,5% Vol.


Tonalidade ruby escuro de concentração moderada.

Nariz
de aroma inicialmente frutado, com bastantes frutos silvestres bem maduros e de grande qualidade, com alguma ameixa em tom fresco. Mostra um toque de gulodice com notas compotadas, que se entrelaçam com notas vegetais/florais/bálsamo a lembrar esteva e rosmaninho. A madeira presente mas subtil, vem aprofundar um pouco mais o bouquet deste vinho, seja na ligeira baunilha, café, especiarias e ligeira tosta que apresenta.

Boca elegante e harmoniosa, conjunto coeso e a apresentar uma boa espacialidade com acidez a conferir frescura durante toda a passagem de boca, madeira fina e toque da fruta madura, alguma compota, em conjunto com vegetal seco, em final de boca com persistência média/alta.

Fruto de uma invejável consistência colheita após colheita, este vinho garante uma qualidade muito acima da média, com a garantia de prazer imediato ou a médio/longo prazo. Ganhou claramente com uma breve decantação (30 minutos), e abrilhantou um assado de borrego no forno. É um Douro que se mostra sério mas bem confortável, capaz de proporcionar bons momentos e que é como o algodão, não engana.
17

21 maio 2009

Comenda Grande Reserva 2004

Comenda: benefício que antigamente era concedido a eclesiásticos e a cavaleiros de ordens militares (Ordem de Malta, Templários...), mas que actualmente costuma designar apenas uma distinção puramente honorífica. No passado, podia remeter ainda a uma porção de terra doada oficialmente como recompensa por serviços prestados, ficando o beneficiado com a obrigação de defendê-la de malfeitores e inimigos.

A Comenda que venho novamente destacar, situa-se perto de Arraiolos, vila famosa pelos seus magníficos tapetes, e pelas deliciosas empadas, mas também nos dias que correm pela qualidade dos vinhos que vê nascer, vinhos que dignificam a terra e as gentes, mas é mais propriamente em Vale do Pereiro, que se encontra o Monte da Comenda Grande de onde saem os vinhos Comenda Grande, nos cerca de 30 ha reinam nas castas tintas: Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Syrah, Alfrocheiro e Tinta Caiada, e nas castas brancas: Antão Vaz, Arinto e Verdelho.
Depois de já aqui se ter provado toda a gama de vinhos produzidos pelo Monte da Comenda Grande, chega a altura de colocar em prova o primeiro topo de gama desta casa, o Reserva 2004:

Comenda Grande Reserva 2004
Castas: Alicante Bouschet (60%) e Trincadeira (40%). - Estágio: 18 meses em Tonéis novos de 1.000 Litros de Carvalho Francês e 8 meses em garrafa. - 15% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração alta.

Nariz perfilado às terras do Alentejo, fruta muito madura e de qualidade, morango, framboesa e ameixa, com vários toques compotados na companhia de especiarias doces (canela, cravinho) a contribuírem para uma fina dose de complexidade. É num travo morno, que a madeira ampara o conjunto, baunilha, tosta e cacau, disfarçando no final com toque de bálsamo vegetal, conferindo ligeira sensação de frescura, sem que os 15% incomodem muito.

Boca a apresentar-se corpolento e de boa espacialidade, fruta madura ao nível da prova de nariz. Sabe a tarte de framboesa e chocolate, com toques de canela pelo meio, e por cima tem uma pequenina folha de hortelã, que ao trincar dá uma sensação de frescura e ao mesmo tempo de bálsamo vegetal. Tudo isto a juntar com o chocolate, a fruta e os toques tostados da massa, num todo muito equilibrado e de boa persistência final.

Pede bons copos e uma prévia decantação para melhor se mostrar, ainda que vai ganhar bastante com o tempo de garrafa, por isso é deixar esquecido durante mais 2/4 anos que a recompensa será ainda melhor e maior. De resto a prova que dá de momento aponta para um perfil de fácil agrado, ainda que entroncado e ainda um pouco reservado, com preço a rondar os 17€.
16,5

20 maio 2009

Ponte das Canas 2005

No início do século XIX, Thomas Reynolds migrou ao Alentejo, tendo como objectivo o negócio da cortiça. Três gerações passadas, o seu neto John Reynolds adquiriu uma propriedade de 900 hectares, denominada Herdade do Mouchão. Aqui, à actividade corticeira a família acabou por adicionar a produção de vinhos. Plantaram-se várias vinhas e em 1901 construiu-se uma adega tradicional, de grossas e brancas paredes de adobe e um elevado pé direito, tudo encimado por um magnífico telhado de telha vã portuguesa. Pensa-se que foi também por iniciativa de John que as primeiras plantas da casta Alicante Bouschet foram trazidas de França.
Durante a década de cinquenta, do século XX, a actividade vitivinícola sofreu uma singular expansão que se traduziu por um aumento das áreas de vinha, pelo aperfeiçoamento das tecnologias de vinificação e pelo início da venda de vinhos engarrafados, em detrimento da velha tradição de venda de vinho a granel, com um cunho muito regional.
Os 38 hectares de vinha são constituídos por diversas parcelas, colocadas em diferentes pontos da propriedade, as mais antigas situam-se em solos de aluvião, numa zona única e irreproduzível, perto da adega, e estão particularmente vocacionadas para a produção de uvas de Alicante Bouschet de elevada qualidade.
Esta casta encontrou na Herdade do Mouchão um “terroir” de eleição. Desde a sua chegada, há mais de cem anos, que as plantas de Alicante Bouschet mostram uma excelente adaptação aos solos argilosos de aluvião, (a 200 metros de altitude), desfrutando de uma insolação intensa, temperaturas elevadas ao longo da maturação, chuvas esporádicas e alguma geada.
Nas outras vinhas situadas em zonas mais elevadas, em solos de boa drenagem, castas tintas autóctones tradicionais como a trincadeira, o Aragonez ou o Castelão, partilham os encepamentos com algumas castas brancas como o Antão Vaz, Arinto e Fernão Pires.
Um século após a sua fundação, e depois de ter recuperado das expropriações agrícolas que ocorreram após a revolução de 1974, a Herdade do Mouchão continua na posse da família Reynolds, mantendo uma tradição ancestral passada de pais para filhos.
Todo o processo de vinificação se mantém praticamente intocável, preservando a tradicional vindima e a fermentação das uvas em lagares de pedra com pisa a pé.
E quando menos se esperava, eis que a surpresa acontece, com o lançamento de um novo vinho , o Ponte das Canas, guiado por linhas modernas mas com um pé no passado, um vinho que une tradição com inovação, moderno com clássico, uma combinação que aqui provamos na sua primeira colheita (2005), lembrando que no mercado já se encontra a de 2006.

Ponte das Canas 2005
Castas: Touriga Nacional; Touriga Franca e Alicante Bouschet - Estágio:
barricas novas de carvalho francês durante 24 meses, com estágio em garrafa de mais 12 meses. - 14,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração média/alta.

Nariz de bela intensidade aromática, inunda o copo com notas de eucalipto, chocolate preto e fruta muito madura, na onda das bagas silvestres, amora e cereja. Liberta-se e perde vergonhas, despertando para aromas florais ainda que algo subtis, e ligeiro vegetal seco (chá preto) num bouquet coeso sentindo-se ainda algumas pontas de ligeira austeridade (o tempo em garrafa tratará delas), onde o torrado da madeira parece ser o pano de fundo mas sem em momento algum, marcar em demasia a prova.

Boca a mostrar um conjunto coeso e bem estruturado, com alguma pujança na forma como conquista a boca, mas consegue ao mesmo tempo ser equilibrado e delicado, saboroso e bastante consistente na prova que dá. Toque mentolado novamente presente, com conjunto de notas de tosta, chocolate preto e fruta muito madura com alguma compota da mesma. Mostra frescura durante toda a passagem de boca , com acidez bem colocada, em fundo de persistência média/alta onde o toque after-eight parece perdurar.

Pode-se dizer que foi mais uma entrada com o pé direito da Herdade do Mouchão, relembra o caso de sucesso que foi o Tonel 3/4 da colheita de 1996. Um vinho que não perde a identidade da casa mãe, mas com um perfil mais virado para as novas tendências, mais moderno e um pouco ''facilitador'' na maneira como se mostra durante a prova. Beber agora é um prazer, que se pode aumentar com mais uns bons anos de guarda... porque afinal, a tradição e o saber estão bem presentes, num preço que ronda os 15€.
16,5

4 Anos... já ?

Assim só como não se quer a coisa, ou porque faz e acontece, e a meio de um copo de abafado, acabei de constatar que o Copo de 3 faz 4 anos de vida online.
Durante todos estes anos enquanto escrevo e provo, já assisti à queda de um império, já vi o renascer de uma civilização, reis do nada que do nada nasceram, assisti à passagem do tufão Geirinhas que qual messias previa que nos blogs tal como nos vinhos, também há a fase chata...
Alguns efeitos colaterais têm feito as suas vítimas, alguns pereceram pelo caminho pois poucos são os que estão para dar alguma parte das suas vidas ao recanto das provas a que se chama blog.
Que não se deixe cair a bandeira e que novas vozes se levantem, que novas mãos agitem alto esta bandeira, que é nossa.
Longa vida aos blogs e a todos aqueles que sacrificam um pouco das suas vidas para os tornarem possíveis...

Um abraço e um obrigado.

18 maio 2009

Vinha Paz Colheita 2000

Os vinhos “Vinha Paz” , são produzidos e engarrafados por António Canto Moniz, cuja família se dedica a produzir vinhos no Dão há mais de 150 anos. As uvas são provenientes das vinhas de Leira da Tremoa e da Barra em Silgueiros, Viseu, são vinificadas nas centenárias adegas da Casa da Carreira Alta em Oliveira de Barreiros, também em Viseu.

São vinhas na encosta Norte do Dão com exposição sul nascente numa área respectivamente de 7,5 e 3 ha, onde se podem ver as Vinhas Velhas com mais de 40 anos e Vinhas Novas com 5 anos, recentemente reestruturadas. As castas dominantes são: a Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro Preto e Tinta Roriz.

A vinificação é feita há já cinco gerações na adega da Casa da Carreira Alta onde ainda se utilizam os lagares centenários de granito e a tradicional pisa a pé. São elaborados dois tipos de vinhos, o “colheita do ano” que resulta de um “blend” com as castas Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto e Tinta Roriz e o “reserva”, tendo como casta dominante a Touriga Nacional (cerca de 80%).

Um produtor que a cada passo/colheita que vem dando/lançando, se torna cada vez mais uma referência a seguir na região dos vinhos do Dão, e nos vinhos de Portugal. Feita que está a apresentação para os apreciadores mais "distraídos", resta colocar em prova aquele que foi o primeiro colheita desta casa.

Vinha Paz Colheita 2000
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto, Tinta Roriz. - Estágio: Estágio em pipas de Carvalho americano e francês. - 13% Vol.


Tonalidade ruby escuro de média concentração, apresentando um ligeiro atijolado no rebordo (sinais dos tempos).

Nariz marcado por notas de vegetal seco (chá preto, musgo, caruma pinheiro), toque floral no campo das violetas seguido de ligeiro animal que por ali resolveu andar a revolver a terra. É no meio deste fino e fresco bouquet, que temos a fruta em modo de framboesas, groselhas e cerejas, bem consolidadas por um bálsamo vegetal. A madeira é o fio condutor que apesar de fina e discreta faz a ligação entre todos os seus componentes, de forma muito eficaz.

Boca a mostrar um vinho fresco, aveludado com finas matizes que variam desde a fruta bem madura e limpa, aos toques de bacon com vegetal seco. Um conjunto que nos presenteia com uma belíssima frescura durante toda a passagem de boca, em corpo médio e bem delicado, aprumado em tudo aquilo que nos mostra e como o mostra, num final de boa persistência.

Pela maneira bastante correcta como se mostrou e comportou, direi que se encontra num momento alto da sua forma, talvez o tal ponto ideal de consumo.
Um vinho com alma e personalidade, prestigia a região que o viu nascer, mostrando também uma capacidade de evoluir bastante positiva. É um vinho com um preço que deverá rondar os 9€, revelando-se uma aposta muito sólida para um consumo a médio/longo prazo, visto que melhora substancialmente com algum tempo de guarda.
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14 maio 2009

Protos Reserva 2000

Bodegas Protos foi a adega pioneira da Ribera del Duero, a primeira que até viria a dar nos anos 80 o seu apelido à D.O. Ribera del Duero.
Protos vem do Grego, Primero, e foi de facto a primeira, corria o ano de 1927, quando um grupo entusiasta e empreendedor de viticultores iniciou aquilo que hoje é um império, em que ano após ano se expande cada vez mais, e goza de uma imagem fortíssima a nível de mercado.

Foi durante os anos 30 e a merce da Expo Barcelona 1929, que a adega se projecta definitivamente a nível internacional, com a atribuição das medalhas de ouro aos vinhos de 1927 e 1928.
Já nos anos 60 com as necessidades de expansão das salas de estágio, são iniciadas obras para as caves de estágio que se encontram localizadas nas entranhas de uma das fortificações mais importantes da comarca, o Castelo de Peñafiel, cuja imagem surge nos rótulos dos vinhos do produtor.
O reconhecimento máximo ocorre nos anos 80, quando o seu apelido, Ribera del Duero, é utilizado por toda uma zona, para assim identificar o Conselho Regulador da respectiva D.O.
O crescimento desta adega continua até que em 1995 se aumenta a área de estágio para um total de 8,500 barricas, depósitos inox de 1,2 milhões de litros e uma sala de garrafas com 5.000 m2.
Nos tempos que correm, terá sido inaugurada a nova adega, cuja foto é testemunha.

Protos Reserva 2000
Castas: 100% Tinto Fino - Estágio:18 meses em barricas de carvalho americano e francês, posteriormente 24 meses em garrafa. - 13,5% Vol.


Tonalidade granada escuro de concentração média.

Nariz acomodado, sereno, com um bouquet elegante a mostrar uma grande afinidade entre madeira, que se mostra fina e bem entrosada no conjunto, com o toque de fruta negra (groselhas, ameixa) bem madura e com drop de licor, acompanhadas de ligeira tosta, baunilha, caixa de tabáco e caramelo. Um vinho que não se cheira, mas que se dá a cheirar, diplomata a senhor do ''seu nariz'', sem espalhafato assume uma ligação com especiaria e vegetal seco perdido em fundo, a lembrar chá preto com algum balsâmico.

Boca de entrada amena, harmonioso, fruta com boa presença a igual modo que na prova de nariz, madeira bem integrada num conjunto de corpo médio. Mostra presença de tosta, vegetal seco, uma boa acidez presente a conferir a frescura suficiente durante toda a passagem de boca, com especiarias e ligeira secura em final de média persistência.

É um Ribera de boa estirpe, muito elegante e afinado, não defrauda e dá uma prova muito consistente. Após 9 anos de vida, mostra-se em boa forma, mostrando-se com um bouquet de fino recorte, com preço a rondar os 20€. Liga bem com carnes vermelhas ou carnes brancas, e acompanhou muito bem um confit de pato.
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Quinta da Alorna Reserva Touriga Nacional 2006

Consta no site do produtor que a Quinta da Alorna deve o seu nome ao primeiro proprietário, D. Pedro de Almeida, Vice-Rei da Índia, a quem D. João V concedeu o título de I Marquês de Alorna por actos de bravura na tomada da praça forte de Alorna, na Índia. Tendo comprado o Casal de Vale de Nabais em 1723, quando regressou a Portugal D. Pedro de Almeida fez dele o núcleo central de um vasto grupo de propriedades onde plantou as primeiras vinhas, mudando-lhe o nome para Quinta da Alorna. O Ribatejo é, desde sempre, uma região rica e apetecida, graças às férteis lezírias, ideais para a agricultura e criação de gado. E Almeirim era então conhecida pela qualidade da sua caça, muito frequentada por nobres e fidalgos, que aqui passavam tempos de lazer.

No palácio da Quinta, de estilo sóbrio, mas distinto erguendo-se de frente para o Tejo, iluminado pelo sol de fim de tarde onde ainda hoje reluz o brasão dos Almeida Portugal, nasceram e viveram várias gerações de Alornas, incluíndo D. Leonor (1750-1839), Marquesa de Alorna, notável poetisa e pintora, que aqui escreveu algumas das obras que a tornariam famosa.

Assim nasceu a “Quinta da Alorna”.

Quinta da Alorna Reserva Touriga Nacional 2006
Castas: 100% Touriga Nacional - Estágio: 12 meses em carvalho francês

Tonalidade granada escuro de concentração média/alta.

Nariz a dizer que temos uma Touriga Nacional fresca e de boa concentração, com a fruta (frutos silvestres) de qualidade mas bem madura onde se nota alguma doçura presente (compota). Inicialmente sente-se uma ligeira austeridade nos aromas, um ligeiro apontamento químico, nada que com copo adequado e algum tempo não resolva. Dá-se então entrada aos aromas florais característicos da casta, com as notas de violetas a surgirem harmoniosamente ligadas a uma madeira bem entrosada, com notas de cacau morno, tosta e baunilha, complementando-se no segundo plano com toques de balsamo vegetal e algum chá preto.

Boca a mostrar-se com entrada estruturada e apelativa, onde o peso da fruta e a sua concentração se fazem sentir. Frescura a contrabalançar com alguns toques mais adocicados da fruta, e uma madeira muito bem integrada no conjunto em igual modo que a prova de nariz. Espacialidade média, com final de boca de apontamento balsâmico, em final médio/longo.

É um Touriga Nacional muito apetecível e feito para agradar a um leque alargado de consumidores (coincidências com o Novo Mundo ?), mostrando a fase mais gulosa da fruta, que caso não fosse uma frescura bem afinada, o resultado seria um vinho enjoativo. Assim temos um vinho muito tagarela e pronto para fazer amigos à mesa, com um preço a rondar os 15€.
16

13 maio 2009

Adega de Pegões Colheita Seleccionada branco 2008

Voltando a repetir o que aqui já foi dito, este branco é insistentemente colheita após colheita, um dos vinhos brancos que melhor relação qualidade/preço apresenta no mercado nacional.
Produzido pela Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões, é daqueles vinhos que independentemente do ano de colheita, se compra sem pensar muito, aliando a um preço sempre sensato e de certo modo ''controlado'', apesar de nos últimos tempos ter tido alguns ajustes onde se notou um aumento de produção, um preço ligeiramente mais alto e uma alteração no lote final em que deixa de constar a Pinot Blanc.

Adega de Pegões Colheita Seleccionada Branco 2008
Castas: Chardonnay, Arinto e Antão Vaz - Estágio: 4 Meses nas pipas onde fermentou com Batônnage - 12,5% Vol.

Tonalidade amarelo citrino com leve toque dourado.

Nariz a apresentar-se fresco e limpo de aromas, boa dose de fruta onde a vertente tropical (ananás, maracujá, banana) se mistura com notas de citrinos e algum pêssego. A fruta parece ficar suportada por um fio de geleia que lhe confere um toque agridoce, notas florais (laranjeira) marcam presença. Madeira (baunilha, tosta) menos presente do que era costume nas últimas colheitas, que aparece com tempo de copo, mostrando novamente um belo de conjunto, revelando-se harmonioso e com uma delicada complexidade, com final a mostrar-se fresco e mineral.

Boca com entrada fresca e frutada, sente-se algum arredondamento, resultante da passagem por madeira, resultante uma maior envolvência e equilíbrio de todo o conjunto. Baunilha e suave untuosidade marcam a passagem de boca, com ponta vegetal sem incomodar muito em final de boa persistência e de cariz mineral.

A conversa que tenho tido ultimamente com um amigo destas andanças vínicas, levou a formular uma ligeira opinião sobre este vinho, pois apesar da indiscutíel apetência que continua a demonstrar, tem vindo a mudar ligeiramente nos últimos dois anos. Talvez se deva a um possível aumento da produção, talvez se deva à saída da Pinot Blanc que antes contribuia com 25% do lote final, talvez se deva às próprias colheitas... independentemente de tudo isto, este vinho subiu o preço no Pingo Doce passando agora a custar bem mais de 3€ quando se comprava a menos (pouco mas menos). Vamos esperar que a sua evolução não seja tão precoce como a anterior colheita, com uma nota final a revelar ajuste, tal como tem sofrido o vinho em si.
15,5

Serras de Azeitão branco 2008

Serras de Azeitão branco 2008
Castas: Fernão Pires, Arinto e Moscatel - 13% Vol.

Tonalidade amarelo citrino com leve toque esverdeado.

Nariz de perfil fresco com intensidade mediana, mostrando-se jovem e a despontar de imediato para uma boa combinação entre frutas bem frescas e com boa maturação (alperces, laranja, limão, ameixa branca). Tudo isto aliado a um toque guloso e adocicado (ainda que ligeiro), prontamente socorrido por uma aragem bem fresca de forro vegetal/floral, rematando num suave toque mineral em fundo.

Boca a apresentar um vinho de corpo algo delgado, com presença da fruta, na mesma onda da prova de nariz. Acidez presente confere frescura que contrabalança com alguma doçura mais atrevida que poderia surgir do Moscatel. Passagem correcta e sem grandes percalços ou esquecimentos, acabando num sumido toque mineral de fundo.

Duas coisas mudaram neste vinho, o preço que dificilmente se encontra em prateleira abaixo dos 2€ e também a mudança a nível de castas, saindo a Chardonnay e entrando a Arinto.
Parece que com a troca de castas, o vinho perdeu alguma da chama que apresentava na anterior edição, para ficar mais delgado mas ao mesmo tempo com aromas mais centrados no campos dos citrinos, mais limonado e com mais acidez.
Perdeu encantos é certo, mas não é por isso que deixa de ser uma aposta fiável.
14,5

08 maio 2009

Devil's Lair Fifth Leg red 2001

Conhecidos pela maneira fácil como agradam a um alargado leque de consumidores, os vinhos do Novo Mundo (neste caso Austrália) já tiveram melhores dias, pelo menos é o que se vai lendo e ouvindo nos cantos e recantos da net.
A verdade é que a fórmula que parecia mágica, e em certa dose até o foi e ainda parece continuar a ser, acabou um pouco na velha história em que o feitiço se volta contra o feiticeiro, e hoje em dia o perfil dos ditos vinhos é mais que conhecido e rebatido, afastando consumidores que se mostram cansados do que lhes é colocado no copo.
Apesar de tudo, são vinhos que tem a lição bem estudada, onde o seu principal objectivo é agradar ao maior número possível de consumidores, com entradas de gama muito competitivos a nível de preço/qualidade/quantidade produzida e até imagem e marketing associados.
Dentro deste panorama apostei num Australiano proveniente de Margaret River (Oeste Australiano), do produtor Devil´s Lair.
Deve-se o nome deste produtor ao nome de uma caverna/gruta situada em Margaret River, onde foram encontrados fósseis alusivos ao Diabo da Tasmânia.
A marca Fifth Leg, surge em 1996, e simboliza o espírito livre e independente de estar na vida, quase como que um tributo ao trabalho que ali se tem desenvolvido.

Devil's Lair Fifth Leg red 2001
Castas: Cabernet Sauvignon, Shiraz (Syrah), Merlot - Estágio: 12 meses em carvalho Americano e Francês - 14% Vol.

Tonalidade granada escuro de concentração média.

Nariz a mostrar-se muito centrado na fruta madura (seja em bagas ou em ameixa e cereja), sumarenta e de qualidade, mediana concentração, com alguma frescura mas sempre com a sensação da colherada de compota gulosa mas sem estar carregada de açúcar. Para retocar o conjunto temos as especiarias (canela, pimenta preta) que também surgem embora discretas, casando todo o perfil com uma ligeira tosta e cacau derivado da madeira. O vinho só de cheirar é apelativo e tem aquela inegável ponta de gulodice.

Boca de entrada correcta, suave e directo, mediano na sua postura, mostra mais uma vez um conjunto onde a fruta é rainha com os retoques da madeira, especiaria, geleia e cacau a dar aquela sofisticação a nível de complexidade. Completamente pronto a ser bebido, com final mediano mas prazenteiro.

É um vinho de puro gozo, na boa ascensão do termo onde se goza de uma prova descomplexada mas com qualidade. Acompanhou muito bem um Spaghetti alla Carbonara, se bem que seria bom companheiro de uns bifes com molho de pimenta.
A fórmula do Novo Mundo parece que continua firme e funciona lindamente, o impacto inicial é cativante e prende o consumidor mais incauto, digamos que o gozo é mais do que momentâneo. É que depois da primeira garrafa ficamos com a sensação de já termos visto aquele filme em algum lado e a vontade de repetir fica um pouco deixada de lado, mas mesmo assim não deixa de ser um filme... perdão, um vinho ''engraçado'' com preço a rondar os 14€.
15,5

07 maio 2009

Vertente 2004

Antes de haver diálogo, era apenas e só nesta vertente que o consumidor de menores recursos financeiros se podia aproximar do Mundo Niepoort.
Tudo começou quando surgiu no mercado faz alguns anos, um efémero Quinta de Nápoles da colheita 2000, que daria lugar no ano seguinte à marca Vertente.
Nesta vertente de provar e analisar as coisas como elas são, digamos que a vertente é sempre a subir, revelando colheita após colheita um mais e melhor refinamento global e até mesmo de ideal. Uma vertente bem duriense que dá muito prazer subir, conquistadora e com um abraço revelador da qualidade dos vinhos desta casa.
Proveniente dos vinhedos da Quinta de Nápoles com cerca de 20 anos e de vinhas velhas próximas do Pinhão, eis o Vertente 2004.

Vertente 2004
Castas: Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Amarela, Touriga Nacional e outras - Estágio: 12 meses em barricas de carvalho francês - 13,5% Vol.

Tonalidade ruby escuro de concentração mediana.

Nariz a dar entrada com a fruta vermelha (bagas) bem presente e madura, com ligeira sensação de adocicado (compota), num todo que se mostra largo de horizontes (leia-se com alguma profundidade nos aromas que apresenta). Tem refinamento na complexidade que apresenta, deambulando pelo toque especiado das pimentas, chocolate negro, fumado e lá no final um ligeiro socalco de mineralidade (talvez proveniente do chão pedregoso da dita vertente).

Boca na mesma sintonia da prova de nariz, com a presença da fruta em grande sintonia com a madeira por onde a mesma passou. Ganha com isso alguma cremosidade/aveludado, na boa espacialidade e frescura que apresenta durante toda a passagem de boca. Complementam a prova ao mesmo nível que da prova de nariz, as pimentas, o chocolate preto e o toque de mineralidade.

É um Douro de perfil mais moderno, não direi novo mundo mas com aquele toque que o torna muito actual e bastante apetecível.
Mostra-se bem mais pronto a beber que a restante gama Niepoort (tirando o Diálogo), com um preço a rondar os 15€.
16
 
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