Copo de 3: Fevereiro 2011

25 fevereiro 2011

Château de Beaucastel Vieilles Vignes Blanc 2003

É deveras interessante a maneira como vamos educando e refinando o nosso gosto ao longo do tempo, para isso contribuem alguns  amigos que temos à nossa volta e que nos ajudam nessa tarefa, que transpiram conhecimento e que o gostam de partilhar, provar com eles são autênticas aulas de enofilia, a todos eles só tenho que agradecer. A aventura faz parte da vida, no imenso mundo de vinho que é a França, optei por começar nos brancos do Vale do Loire e depois passei para o Vale do Rhone, tenho tido o privilégio de ir conhecendo alguns dos maiores produtores e vinhos feitos nas duas regiões, não todos mas os suficientes para saber o que de bom por ali se faz, os preços que pedem é que não permitem grandes deslizes, convém precaver e apostar naqueles que nos dão garantias, mesmo assim os vinhos do Vale do Rhone são dos que melhor RPQ apresentam. Só depois de estarmos algo mais à vontade poderemos entrar no jogo da aventura, do experimentar... eu para isso ainda não tive muita coragem.
Mas deixem-me mergulhar num dos grandes nomes do mundo do vinho, situado em Courthezon no Sul do Vale do Rhone, mais concretamente na appellation de Chateauneuf-du-Pape fica o Château de Beaucastel. Conta com 400 anos de história e cerca de 110 hectares de vinha, depois de 3 gerações é a família Perrin ( na actualidade Jean-Pierre e François Perrin) que toma conta dos destinos de Beaucastel desde 1909. Os vinhos que ali são produzidos fazem as delícias da enofilia mundial, a gama é composta pelos Coudoulet em versão branco e tinto, e depois pelos Beaucastel, branco e tinto e finalmente pelos direi especiais, o Beaucastel Hommage a Jacques Perrin e o branco Beaucastel Vieilles Vignes.
O Vieilles Vignes, lançado em 1986, é considerado como o melhor branco do sul de França, proveniente de 3 hectares de Roussanne em que a idade das vinhas passa os 75 anos de idade. As uvas são apanhadas à mão, prensagem pneumática com clarificação do mosto, a fermentação decorre 50% em madeira e 50% em inox, com estágio de 8 meses. A produção é inferior a 500 caixas, coisa pouca para um mundo sedento de o ter nas mãos, a elevada procura aliada à elevadíssima qualidade faz com que seja caro, não tão caro como os topos da Borgonha, mas o seu preço ronda com facilidade os 80€. Não tenho presente a informação se os brancos desta região são de longa ou média guarda, mas neste caso dizem os sommeliers que o vinho deverá ser bebido nos seus primeiros 4-6 anos de vida para depois o deixarmos dormir e só voltar a acordar até que tenha 12-15 anos. Todo um portento num vinho de raro perfil e excepcional qualidade. Em prova o 2003, que se apresenta com 13,5% Vol.

No aroma é complexo e envolvente, delicado e com uma grande harmonia de conjunto, madeira plenamente integrada, muito cativante e cheio de coisinhas boas, fruta muito limpa e madura, daquela que cada vez se encontra menos, cheiroso na tropicalidade, pêra, pêssego, sensação de marmelada fresca com mel muito puro e fino. O vinho é muito cativante, direi viciante também, surgem notas de pão torrado, óleo de noz, tudo a conferir uma boa profundidade, com evolução de grande nível no copo, flores e algum vegetal (chá verde). Intrigante ? Diferente ? Personalizado... Único.

Boca de entrada fresca acompanhada de leve untuosidade com boa espacialidade. Toque leve de calda, vivacidade da fruta, tudo muito limpo e esclarecido, alta costura, anisado com a tal frescura suave durante toda a passagem de boca, de sabores concentrados em harmonia digna de registo. Complementa-se com flores e novamente um toque melado, o fundo é forrado a mineralidade. Parece entrar com tudo muito organizado, dentro da boca quase que dá para ir notando cada coisa a seu tempo, os sabores ficam colados aqui e ali e vem a acidez que limpa tudo para no final dominar a mineralidade.

Cheio de detalhes, pleno de encantos, companheiro de luxo para pratos delicados, Galinha da Índia com Couve é um exemplo, um branco memorável e a entrar directamente para os lugares de topo. No meio de tudo isto não posso deixar passar as sempre presentes memórias de um amigo que tanto gostava desta casta. 19 - 97 pts

23 fevereiro 2011

Reserva do Comendador branco 2008

Branco nascido e criado em terras de Campo Maior, mais propriamente na Adega Mayor, o Reserva do Comendador 2008 foi considerado o melhor branco (Talha de Ouro) no concurso anual da Confraria dos Enófilos do Alentejo. Um Regional Alentejo que resulta de um lote das castas Antão Vaz, Roupeiro e Arinto, que “demonstraram neste vinho as suas excelentes potencialidades enológicas,” de acordo com o Escanção Mor da Confraria dos Enófilos do Alentejo. Fermentou e estagiou 6 meses em barricas novas de carvalho francês e americano, batonnage sobre as borras finas presentes na barrica. Apresenta-se no mercado com 13% Vol. e um preço que ronda os 16€ em garrafeira.

Aroma de muito bom porte, com intensidade e a sentir-se a frescura da boa fruta tropical, polpa branca e citrinos com aroma a geleia acompanhado de notas florais e ligeiro abaunilhado. O vinho transmite a sensação de arredondamento, aconchego tanto da fruta, como da barrica muito bem educada, num conjunto coeso e muito agradável.

Na boca mostra-se saboroso, fresco, suave com fruta madura ao nível do encontrado no prova de nariz, a madeira ampara e dá-lhe formas mais arredondadas (untuosidade) sem nunca perder uma frescura que nos guia de início ao fim. Revela uma ligeira secura no final quase a lembrar chá verde, em final de boca de boa persistência.

Depois de ter provado o Reserva 2007 faz algum tempo, este 2008 veio confirmar este branco como uma aposta muito séria nos brancos do Alentejo. A frescura que mostra quer em nariz quer em boca vem mostrar que os brancos do Alentejo não têm de ser pesados e a transbordar de notas de barrica, começam a aparecer vinhos frescos, harmoniosos em que a barrica faz o seu trabalho e dá à fruta a obrigação de brilhar... neste Reserva do Comendador isso cumpriu-se e o vinho que se mostra um companheiro de mesa deu mostras que vale a pena contar com ele. No mercado já anda a colheita de 2009. 16,5 - 91 pts 

22 fevereiro 2011

Yves Cuilleron Condrieu Les Chaillets 2008

É no Norte do Rhone que fica situado o Domaine Yves Cuilleron, criado em 1920 pelo avô do actual proprietário, Yves Cuilleron, que se destaca pelos brancos que produz em Condrieu. Este é um produtor que já tive a oportunidade de estar pessoalmente à conversa enquanto provava os seus fantásticos vinhos, tomou conta da propriedade que era do seu tio em 1986, nos anos que se seguiram comprou mais vinha e expandiu a produção de vinho para outras zonas, tornou-se num dos principais produtores da appelattion de Condrieu, dispondo de um total de 52 hectares de vinhas e fez com que os vinhos ali produzidos tenham vindo a subir de qualidade ano após ano. 
Condrieu é uma AOC que apenas produz vinho branco em que a casta utilizada é a conhecida Viognier, aqui ao contrário do que nos acostumamos a encontrar em Portugal, os vinhos não são pesados mas sim frescos e delicados e muito harmoniosos. Na quantidade de vinhas que possui, permite a elaboração de 3 vinhos, o mais básico de nome La Petite Côte, feito a partir das vinhas mais novas (15-20 anos) em que apenas 30% do vinho passa por madeira onde fica durante 10 meses. O vinho topo de gama é o Ayguets, mas irei abordar o Les Chaillets, produzido a partir das melhores vinhas velhas (30 - 60 anos) plantadas em terraços (Chaillets). No total apenas 80% do vinho passa 9 meses em barrica, sur lies com batonnage regular, produzindo em 2008 cerca de 1800 garrafas com 13,5% Vol. e o preço ronda em garrafeira os 40€.

Aparece vestido de seda, aroma sedutor na fina e delicada complexidade que apresenta, se bem que algo compacto e bem perfumado, a dar indicações que vai demorar mais alguns anos a desembrulhar-se por completo. Fruta (pêra, alperce) banhados por uma leve calda muito fresca, com a fruta a mostrar-se bem definida e delicada notas florais (camomila) a acompanhar com notas anisadas. A madeira não se nota mas ampara, alguma avelã na forma de óleo, parece uma frutaria com paredes de madeira, não se nota a madeira mas confere um ar mais acolhedor à presença da excelente fruta que nos oferece.

Boca arredondada, mediano de corpo mas profundo de aromas e sabores, fino e muito harmonioso, sem esmorecer por algum momento na boa frescura que o guia de principio ao fim. A fruta faz-se sentir com grande limpidez, agradece a ser servido numa temperatura adequada pois só assim poderá brilhar, de resto tem suavidade no trato, alguma "gordura" que lhe confere corpo arredondado, a tal passagem pela madeira tem a culpa. Pelo meio notas de mineralidade, cascalho molhado, que lhe preenche o final de boca ao lado de novas notas de algum vegetal/floral.

Um vinho luxuoso, delicado, fresco, onde tudo parece estar colocado com enorme precisão... o que brilha acima de tudo é a pureza com que todo o conjunto se vai mostrando. Este vinho que não é barato depois de o provar torna-se uma lição e que não deixa de se fazer a pergunta, em Portugal fazem-se Viognier ou antes pelo contrário fazem-se vinhos com a casta Viognier ? É que tirando um ou outro exemplar Lusitano digno de registo, o resto é tudo mais do mesmo, pesados, com falta de frescura e que acabam quase sempre por não ter gracinha nenhuma... qual o sentido de se insistir numa casta como esta em Portugal ? Enquanto falava sobre isto com o colega do lado o vinho foi-se acabando no copo, olhei para a garrafa e não tinha mais... 17,5 - 94 pts

21 fevereiro 2011

Quinta da Covada Reserva 2008

Novamente de volta com os vinhos da Quinta da Covada, um produtor que surpreendeu com os seus Reserva, provado o 2007 muito recentemente o vinho mostrou-se num nível muito alto para a região onde nasceu, infelizmente os pequenos produtores não têm a atenção merecida. O vinho que se segue é o Reserva 2008, um vinho que dá uma belíssima prova em todos os aspectos, sem querer da minha parte beliscar por algum instante a imagem cuidada que a garrafa tem, direi que com outro nome no rótulo seria naturalmente mais caro e facilmente reconhecido por todos como um grande vinho, o que mostra que por vezes não é por custar 30€ ou mais que se tem mais qualidade. Aqui temos um nível qualitativo que se situa junto de outros que custam os tais 30€ ou mais, mas disso este Covada Reserva 2008 não tem culpa, sorte a dos que o conhecem e compram. Com enologia de João Lopes Pinto, o vinho é feito com 20% de Touriga Nacional e 80% Vinhas Velhas onde predomina a Tinta Roriz, Touriga Franca e Rufete. Tira apontamentos durante 14 meses em barricas de carvalho francês e sai com 14,5% Vol.

O vinho mostra-se bastante cativante de aromas, de notar que um pouco de tempo no copo ou mesmo uma rápida dupla decantação só lhe fará bem, verter no decanter e voltar novamente a deitar para a garrafa. Mostra desde o inicio finura de trato sem aromas exageradamente ruidosos ou barulhentos, madeira com alguma tosta, baunilha ligeira, um vinho harmonioso, fresco. Fruta preta algo escondida com boa colherada de compota, indica que quer dormir mais em garrafa, folha seca de tabaco, especiaria na pimenta preta, toque de bálsamo vegetal, flores da Nacional e um todo com uma bela complexidade e ao mesmo tempo muito bem embrulhado. Tudo no ponto certo e a mostrar-se muito bem arrumado.

Na boca mostra-se com boa harmonia entre fruta/madeira/acidez, conjunto sólido mas muito amigo da prova, e da mesa, bela passagem de boca apoiada na suculenta fruta com mediana concentração, tudo muito harmonioso, fruta (cereja, frutos negros) com algum toque mais doce, madeira ampara o vinho com os taninos a pedirem mais algum tempo, leve secura na parte final apesar de se beber lindamente neste momento. Final de boa persistência num vinho muito virado para a mesa, diz-se com perfil muito gastronómico.

Dos tintos do Douro que mais prazer me deu a beber nos últimos tempos, uma enorme surpresa, um balão de oxigénio que de uma forma democrática permite a um preço sensato ,15€, colocar este belo vinho na mesa de um leque alargado de apreciadores. É difícil ficar-lhe indiferente e são poucos ou que não o querem voltar a encontrar. É de comprar à caixa para ir bebendo com muito prazer e ao longo dos próximos anos. 17 - 92 pts

Quinta da Covada 2009


A conversa repete-se uma e outra vez, não se gasta e cada vez parece que está mais forte e duradoura, afinal de contas com o aperto do cinto o que sobra para vinho vai sendo cada vez menos. Muitos produtores não querem saber disso, vivem no País das Maravilhas e continuam a lançar vinhos a 50€ como se nada fosse, o pior é que são tantos a lançar vinhos a preços de patamar superior, ou nalguns casos direi mesmo de escândalo que a oferta torna-se superior à procura e alguns acabam mesmo por ficar com o vinho tempos e tempos sem que consigam despejar o stock. Fugindo a tudo isto, felizmente ainda há produtores que pensam com o coração e cabeça e não com a carteira, pessoas que têm amor pelo que fazem e produzem... os vinhos mostram-se cativantes, lufadas de ar fresco num ambiente carregado de mofo, é tão bom sentir que de vez em quando aparece algo que nos deixa contentes. Os Quinta da Covada são exemplo dessa alegria, são vinhos muito bem feitos, apelativos e com vida pela frente, o sangue jovem que os faz tem irreverência mas ao mesmo tempo respeito pela identidade característica da zona que os vê nascer... o Douro.


Em prova o Quinta da Covada 2009, é o entrada de gama do produtor, um vinho resultante de um lote de várias castas que se apresenta com 14% Vol. e um preço a rondar os 3.50€. Um vinho que quando se prova tem de se ter obrigatoriamente em consideração o seu target, para um consumo do dia a dia com bastante qualidade que o torna uma escolha muito apetecível. A boa notícia em tempos de crise é que segundo o produtor a produção deste colheita 2009 já estará praticamente esgotada.
De aroma de mediana intensidade, fresco e frutado, toque ligeiramente tostado da barrica, sensações vegetais no segundo plano com esteva e mato serrano, respira-se o Douro ainda que no segundo plano desenvolva algum chocolate de leite e compota. A frescura compensa tudo isto num vinho de fácil agrado nada complicado e pronto a beber. Em boca é o resumo do encontrado no nariz, de fácil passagem, fruta com frescura que guia durante toda a passagem de boca, vegetal uma vez mais presente no mesmo nível do já encontrado, num conjunto de corpo mediano.

É um belo vinho Duriense de entrada de gama, preço sensato para aquilo que oferece, aqui não temos um vinho apenas e só com passagem de inox, teve o bónus de alguma madeira que lhe confere algum arredondamento e refina a complexidade aromática. Fica entre o moderno e o clássico se assim posso dizer, num perfil que me agradou e cumpre correctamente os objectivos. 88 pts

20 fevereiro 2011

Nora da Neve 2006

Em Portugal os brancos feitos da casta Alvarinho com passagem por madeira é algo digamos recente, excluindo os casos pontuais que existem, o número de produtores que o faz com grandes resultados conta-se pelos dedos de uma mão, do outro lado da fronteira nas Rias Baixas esta prática já não é digamos, recente, e os Albariños com fermentação em barrica têm surgido sempre como vinhos raros e caros, em que são sempre o topo de gama da casa.
Da adega rodeada por vinhas com panorâmica para o Rio Minho, solos pobres e arenosos, altitude inferior a 300 metros, próximas ao mar e ao mesmo tempo ao rio. São 14 hectares de vinha da casta Alvarinho, em que os solos são compostos por uma original mistura de cascalho com granito, os vinhos da última colheita nunca se engarrafam antes do mês de Março seguinte, sendo objectivo claro das Bodegas Viña Nora comercializar vinhos jovens e não recém nascidos. Um dos grandes desafios foi a elaboração de um vinho, como o Nora da Neve, fermentado integralmente em barricas de carvalho francês. Com este vinho presta-se homenagem à tradição dos antigos Albariños que permaneciam em barrica até ao segundo ano de vida, e ao mesmo tempo, apresenta-se uma alternativa moderna na gama da mais alta qualidade de brancos de Espanha. Não é certamente daqueles vinhos de fácil abordagem ou que todos vão adorar, este Nora da Neve 2006 precisa de atenção e dedicação, precisa de copos à altura para melhor o podermos entender, um 100% Alvarinho com 7 meses de banhos em barricas de carvalho francês cujo preço ronda os 21€.

Aroma a precisar de espairecer, precisa de algum tempo no copo, o que se nota logo de início é uma oxidação positiva e no bom sentido com a barrica a dar notas da sua presença em boa integração com o conjunto. É com algum tempo que o vinho se vai mostrando, fino e elegante, com fruta madura (polpa branca, citrinos, tropical ligeiro) um pouco desgastada na frescura e intensidade quer pelo tempo quer pela madeira, vegetal e floral seco (louro, flores brancas), pinhão, manteiga de avelã e fumados em fundo.

Boca de entrada calma e com boa amplitude, muito esclarecido no que tem a mostrar e a dar, acidez fina e firme que serve de fio condutor para toda a passagem de boca, com a madeira a servir de pano de fundo, no meio desfilam as frutas (citrinos, polpa branca) em suave calda na maneira que parece conferir alguma untuosidade. O final é longo e persistente.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se e quando queremos mais já não há. É assim este Nora da Neve, um Alvarinho luxuoso recheado de coisas boas de grande qualidade, a complexidade em copo faz dele um vinho telúrico e amigo de boa conversa à sua volta. Será certamente um bom exemplo de como a passagem por madeira confere à Alvarinho uma nova complexidade e mantém parte da frescura tão necessária para o vinho não perder interesse. A fruta aliada a um conjunto recheado de coisas boas, de cheirar e de provar... 17 - 92 pts

19 fevereiro 2011

Desafio PROVA À QUINTA: Perfil Clássico

Para re-iniciar esta iniciativa da melhor maneira o Copo de 3 vem desafiar todos os Blogs (podendo estender a iniciativa a quem visita os nossos blogs) que se dediquem ao mundo do vinho a participar.
Perguntam vocês o que é afinal o PROVA À QUINTA ?

Tudo se desenrola da seguinte maneira:
- O blog interessado lança um desafio, sempre no último dia do prazo que será obviamente uma Quinta Feira, os desafios podem ser tão variados como por exemplo: provar um vinho de casta estrangeira, um branco inox, vinho clássico, vinho italiano, vinho para acompanhar Queijo da Serra... depende da imaginação de cada um.
- O blog que lançar o desafio fica responsável por recolher todas as notas de prova dos restantes blogs e fazer no final um apanhado com algumas conclusões, nada de muito extensivo apenas o básico e interessante da coisa.
- Os blogs que participam afixam a sua nota de prova com a foto alusiva, para melhor se identifiar dos restantes artigos colocados. Convém dar uma pequena explicação sobre os motivos da escolha de cada um para cada desafio.
- Após ser lançado o desafio, os bloggers têm 15 dias para responder, passado esse prazo voltamos ao primeiro passo e um outro blog poderá lançar novo desafio.
- Convém dizer que a escolha dos vinhos é livre e da responsabilidade de cada blog, desde que respeite os objectivos colocados.
- Como é óbvio e após vários pedidos, esta iniciativa é aberta à participação de todos os leitores dos blogs participantes.

Para começar fica aqui o meu desafio: Apresentar um tinto de Perfil Clássico proveniente de uma qualquer região de Portugal... ainda existem vinhos assim ?

Caros amigos têm até Quinta Feira, investiguem, procurem e finalmente provem, o objectivo é ficar a conhecer e partilhar esse mesmo conhecimento com os restantes.

17 fevereiro 2011

VZ branco 2008

Com o boom qualitativo que se tem assistido nos brancos nacionais, hoje em dia pouco é o produtor que não resiste em ter um branco de referência. O Douro será muito provavelmente a zona que mais fervilha no que toca a novidades, e nos brancos  muito e bom se tem feito nos últimos anos. Um desses exemplos surge das mãos do reconhecido produtor Cristiano Van Zeller, um branco baptizado como VZ que coloco em prova com a colheita de 2008. O ano de 2008 deu excelentes condições às uvas da zona de Murça, de onde provêm 95% das uvas deste vinho, vinhas velhas com 70 anos onde predominam Codega, Viosinho, Gouveio e Rabigato. O vinho banha-se em barricas novas de carvalho francês, salta para o mercado em garrafa pesadona com 12,5% Vol. e um preço de respeito que ronda os 25/30€.

No aroma sente-se um vinho com certa dose de untuosidade, algum peso que resulta da passagem por madeira, num todo bastante afável sem grande complexidade ou intensidade. Mistura um travo da fruta madura, alperce e citrinos, com madeira bem integrada, alguma baunilha e tosta dão claras sensações de arredondamento, mas domina uma boa frescura com notas de pimenta branca, algum mato serrano e fundo bem mineral.

Boa entrada de boca, frescura sentida no primeiro instante, toque limonado seguido de imediato por fruta de polpa branca e arredondamento da madeira, ainda que ligeiro pois consegue mostrar uma bela frescura durante toda a prova, sem ter muito peso, amplo e com boa mineralidade. Determinado e com enorme paciência para andar a girar no copo, dá gozo beber uma e outra vez, o álcool em formato ideal, sempre são 12,5% faz com que se beba todo sem se dar por isso... no final apetece mais.

O tempo ajudou a madeira a entrar no sítio certo, está muito bom de nariz e de boca, talvez lhe pudesse chamar de uma enorme bola de algodão, o problema aqui é o preço. Gostei muito mas para o que custa pedia um pouco mais de clarividência no que a fruta diz respeito, ela anda lá mas parece algo apática. A despachar o que se tenha que o 2009 já anda por aí... 16,5 - 91 pts

16 fevereiro 2011

Monte da Ravasqueira branco 2009

Volto novamente aos vinhos Monte da Ravasqueira (Arraiolos) desta vez em prova o branco 2009, um lote de Chardonnay, Viognier e Arinto, em que 20% do lote fermentou em barricas novas de carvalho francês. O preço  ajuizado deste branco deverá rondar o mesmo do tinto, 6€, num vinho com 13,5% Vol.
Apresenta-se com aroma de média intensidade, mostrando logo de início os aromas frescos da fruta (pêssego, ananás, citrinos) com vegetal fresco (rama tomate) a fincar pé, rebuçado de limão e lemon grass. A passagem por madeira deu-lhe ligeira sensação de arredondamento e um extra de ligeira complexidade que se sentem à medida que vamos provando.

Na boca sente-se conjunto de boa espacialidade, a fruta fresca acompanhada de boa dose de acidez, a meio palato leve arredondamento, nada de mais apenas o suficiente para embalar o vinho na descida, de resto bebe-se tranquilamente e em boa companhia, com final de boca de boa persistência. O ponto forte na boca mostra ser a frescura enquanto que no nariz parece ser o conjunto vegetal/fruta que marca o ritmo.

Está mais do que pronto a beber pois a próxima colheita não tarda em surgir no mercado e estes brancos são melhores ainda na plena força da sua juventude. Estes Monte da Ravasqueira são na sua essência vinhos frescos, vinhos onde a fruta se mostra sem pudor, que estão muito virados para acompanhar uma refeição e que não nos saturam com aromas repetidos, cuidados, certinhos e bem prazenteiros. Daqui em diante tentarei dar mais atenção a este produtor que me tem passado tão ao lado estando eu ali tão perto. 15,5 - 89 pts

Monte da Ravasqueira 2009

Ligado há várias gerações à família José de Mello, o Monte da Ravasqueira está localizado no Concelho de Arraiolos, a uma hora de distância de Lisboa, ocupando uma vasta área de paisagem tipicamente alentejana, cuja gestão e exploração é assegurada pela Sociedade Agrícola D. Diniz, SA.
Dispõe de uma área de vinha de cerca de 43,86 hectares, onde nas tintas predomina Aragonez, Trincadeira e Touriga Nacional,  e uma produção anual de 200 mil garrafas.
Realizou a sua primeira vindima em 2001, comercializando actualmente no mercado nacional e de exportação três marcas de vinho: “Monte da Ravasqueira” (Tinto, Branco e Rose), “Fonte da Serrana”(Tinto e Branco) e “Calantica” (Branco e Tinto). Em 2007 lançou um novo vinho, o "Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs Tinto 2005" e mais recentemente lançou o seu topo de gama a ser lançado apenas em anos de excepcional qualidade, o MR Premium 2007, uma homenagem que os sucessores de José Manuel de Mello, lhe decidiram prestar pela excelência que sempre o caracterizou como empresário e pela paixão que dedicou à criação de Cavalos Lusitanos e à produção de vinho no Monte da Ravasqueira.
Assumindo o compromisso de produzir vinhos de qualidade distintiva, o Monte da Ravasqueira desenvolve também um conjunto de outras actividades ligadas à cortiça, azeite, mel e criação de gado bovino e de cavalos lusitanos de qualidade. Resta dizer que a enologia está a cargo de Paulo Peças e Rui Reguinga.


Em prova o Monte da Ravasqueira tinto do ano 2009, este talvez o vinho mais representativo do produtor sendo o ponto de partida para todos os outros, quer sejam abaixo ou acima no que a qualidade diz respeito. Neste caso um lote de castas,  Syrah, Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Aragonês, Trincadeira, Touriga  Franca e Petit Verdot, em que cerca de 40% do lote estagiou durante 6 meses em barricas de carvalho francês, apontando o produtor para uma margem sensata de longevidade prevista para 4 a 5 anos.

O vinho mostra claramente que a aposta foi pelo caminho da frescura e qualidade da fruta, objectivo que se atinge pois é isso mesmo que o vinho mostra durante a prova. Com um aroma inicialmente frutado (cereja, amora, ameixa) de média intensidade e concentração, mas tudo muito vistoso com apontamento floral e vegetal que se instala em segundo plano e complementa com notas de geleia fresca com especiarias e ligeira tosta em fundo.

Boca muito harmoniosa, frescura a sentir-se durante toda a prova, frutado com toque vegetal e alguma secura na ponta final. É todo ele bem proporcional ao encontrado no nariz, médio de estrutura e de comprimento, mas tem tudo muito bem delineado e a mostrar grande apetência para a mesa. Optei por decantar ligeiramente 30 minutos antes de o beber, o vinho mostrou-se mais desperto e espevitado, à mesa todos gostaram. O preço ronda os 5,50€ com mais umas migalhas... o que para a qualidade apresentada se mostra uma boa opção. 15,5 - 89 pts

11 fevereiro 2011

Herdade do Perdigão Reserva branco 2008


O que leva alguns vinhos a serem maiores que outros ? Afinal de contas porque razão certo tipos de vinhos são mais cotados no mercado e junto dos consumidores que outros ? A meu ver o saber envelhecer é uma enorme virtude e algo que se deve exigir enquanto consumidor a vinhos apelidados de grandes... tudo o resto é fogo de vista. Mas esta conversa surge quando lado a lado tinha dois brancos, um de 2002 e outro de 2003, o 2002 um puro Riesling Alemão, tonalidade imaculada pelo tempo, fresquíssimo de aromas com complexidade ainda por desembrulhar... o 2003 um Arinto ali de Bucelas, ouro velho como velho nos aromas, flores murchas e secas, palha, melado... branco velho, arinto velho já sem grande vivacidade e obviamente sem grande vida pela frente. Questionei-me sobre que grandes brancos moram em Portugal, que brancos são feitos em Portugal que ganhem de maneira inequívoca com o tempo ? Afinal de contas para se ser grande não o basta ser cá dentro, há que o ser também lá fora.

Enquanto pensava na resposta, dediquei-me a um dos melhores brancos do Alentejo, produzido na Herdade do Perdigão (Monforte), desde 2003 nas mãos do produtor Carlos Gonçalves, anteriormente propriedade de João Lourenço (Altas Quintas) que teria por sua vez comprado a Alfredo Saramago. Em prova o topo de gama deste produtor no que a brancos diz respeito, um puro Antão Vaz que fermenta em barricas novas de carvalho francês e ali se fica por 6 meses com direito a battonage. Salta da garrafa com 13% e compra-se por menos de 12€ na Garrafeira Nacional.

Com um aroma de boa intensidade e envolvido de forma harmoniosa pela madeira que lhe confere boas sensações de untuosidade/cremosidade ainda que ligeiras, baunilha, tudo isto aliado a uma quantidade bem fresca e madura de fruta tropical com toques de pêssego e citrino (tangerina, limão). Tem a sua dose de flores, com rasgos de mineralidade em fundo, num perfil fresco, personalizado e fiel à terra, fiel ao Alentejo. Tudo bem delineado, com boa concentração mas sem esforços suplementares, boa frescura e elegância entre acidez/fruta/barrica.

Boca de boa amplitude, frescura a acomodar-se ao ritmo da fruta bem madura entre tropicais e frescuras citrinas em conjunto com a barrica, que vem conferir algum peso ao vinho, arredondamento, harmonia, leve travo especiado e algum vegetal/floral no fundo em que a sensação de ligeiro mineral volta a surgir.

Um Alentejano de muito boa estirpe, nasce com a Serra de São Mamede como pano de fundo, mostra uma frescura de fruta muito interessante acompanhadas por notas minerais em fundo, foge obviamente aos Antão Vaz pesados e adocicados que antes reinaram em terras Alentejanas... ainda bem digo eu. A versão 2009 já deve andar no mercado, mas este 2008 com o tempo que levou de garrafa fez as minhas delícias e fez excelente companhia a um pargo no forno. 16,5 - 91 pts

10 fevereiro 2011

Mauro 2006

Alguns graçolas gostam de dizer à boca cheia que eu sou uma pessoa que defende muito o vinho Espanhol... ora como se assumir o que se gosta fosse um enorme pecado ou mesmo um acto de infidelidade vínica para com o vinho feito em Portugal. Afinal de contas, Enófilo que se preze deve gostar de todos os bons vinhos independentemente da sua região, casta ou país, eu assim o continuarei a fazer, assumindo sempre os que mais gosto.   Dito isto vou falar de um vinho feito do outro lado da fronteira, feito por um dos grandes senhores do vinho, não só de Espanha mas do Mundo, um nome que aprendi a respeitar desde muito cedo, os seus vinhos são exemplares e tudo respira qualidade. O nome das Bodegas Mauro, criadas por volta do ano de 1980, é sinal de prestígio e de Castilla y León (ficam à porta da D.O. Ribera del Duero), também sinal de modernidade e de vinhos feitos com mestria pelas mãos de Mariano Garcia. O vinho que comento é a entrada de gama deste produtor, um blend de Tempranillo com Syrah, vinificação das castas em separado e estágio entre 12 a 14 meses em barricas novas de carvalho francês (75%) e americano (25%).

Num aroma de mediana intensidade, em que primeiro mostra fruta vermelha e negra (morango, amora, framboesa) madura e de suave frescura com ligeira geleia das mesmas, tudo delicado e muito apetecível. Envolve-se com toques de regaliz, a madeira mostra-se muito afinada e refinada, em grande entrosamento com todo o conjunto e sempre de grande qualidade, apanágio desta casa, baunilha, charuto, café em grão e leve apimentado no fundo. Pelo meio parece saltitar um ligeiro apontamento de bálsamo vegetal que confere ao conjunto uma graça suplementar, mas tudo isto embrulhado com mestria embora sem uma complexidade que se destaque em demasia. Ficamos como que à espera de um pouco mais.

Boca com entrada frutada, melhor aqui que no nariz, passagem calma e harmoniosa com ligeira secura a meio palato, corpo médio com boa largueza de ombros, frutado e fresco com embate especiado e vegetal em fundo, acompanhado por toque de café torrado.

O resultado final não terá sido o mais esperado, pelo que conheci de outras colheitas esperava algo mais na forma como se mostrou, notei uma quebra no que a complexidade diz respeito, fiquei preso naquela falta de indefinição que o vinho mostrou pois quer ser e não mostra maneiras de o ser... até pelo preço que pedem por ele, nada barato são 23€ em garrafeira. Depois deste Mauro vem o VS que custa o dobro (45€), e no topo da casa espreita o Terreus cujo preço aponta para o dobro do preço do VS, (90€) portanto sempre em crescendo tanto em preço como em qualidade. Fiquemos contentes pois então, que pelos tais 23€ ou menos, há vinhos feitos em Portugal que dão muito mais prazer a beber. Este marchou em beleza com um assado de borrego, ninguém se queixou mas também não deslumbrou. 16,5 - 91 pts

09 fevereiro 2011

Esporão 4 Castas 2009


Para todos aqueles que costumam beber vinho de baixo custo e num dia de festa, ou porque se faz anos ou mesmo no Natal, desejam meter na mesa uma vinhaça com nível sem ter de hipotecar a casota do cão, da Herdade do Esporão em Reguengos de Monsaraz sai este Esporão 4 Castas, um daqueles vinhos em que se deve apostar, o preço não é alto rondando os 10€ e revela-se uma excelente aposta para a qualidade que oferece. A versão 2009 foi produzida a partir das quatro melhores castas dessa mesma colheita, Alicante Bouschet (confere estrutura, acidez e longevidade), Aragonês( estrutura e taninos sólidos), Touriga Franca (equilíbrio e frescura) e Touriga Nacional (aroma e complexidade do palato), plantadas em solos franco-argilosos. Fermentação feita em separado, cada uma das 4 castas estagiou nove meses em barricas de carvalho americano e francês, seguindo-se o loteamento, seguido de mais seis meses em garrafa antes de sair para o mercado.

Ora este 4 Castas mostrou-se bem apelativo no nariz, vinho cheiroso de boa complexidade, agrada facilmente aos convivas mais selectos, frescura dos frutos silvestres (amora, framboesa) alguma ameixa, na totalidade frutos maduros com um leve toque da sua compota, pelo meio um leve floral com bálsamo vegetal, a barrica por onde passou sente-se de maneira que não incomoda, muito bem integrada, com notas fumadas, chocolate de leite algum caramelo, baunilha e especiarias de fundo.

Na boca mostra alguma garra, ainda que sem incómodos, está muito pronto a beber, bem estruturado num todo que se apresenta com bom corpo, sente-se alguma cremosidade na sensação que dá ao passar na boca, baunilha e fruta bem fresca. A jogar claramente no campo da elegância o vinho espelha em grande forma o que foi encontrado na prova de nariz, complementando-se em grande harmonia.

A preço de Hiper este vinho fica a menos de 10€, tem entrada directa nos Melhores vinhos tintos abaixo dos 10€ do Copo de 3 que irei publicar proximamente. É uma aposta mais que recomendável para dias de festa sem ter de gastar muito euro... tem a mais valia de se comportar muito bem à mesa, quer a solo ou mesmo acompanhado. 16 - 90 pts
 
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